Documentos de quase 300 anos do Arquivo Permanente do TJMG revelam histórias inéditas da escravidão e da luta de pessoas negras pela própria liberdade.
Em um dos processos judiciais, pessoas escravizadas apresentaram cartas de alforria ao Judiciário, conseguindo o reconhecimento de sua liberdade e evitando um leilão.
Um documento do século 19 continha uma carta de alforria dobrada repetidas vezes. O papel era carregado no bolso para comprovar a liberdade.
O acervo documenta a participação do Banco do Brasil, que aceitava pessoas escravizadas como garantia para executar dívidas de fazendeiros e comerciantes.
Historiadores e funcionários do arquivo destacam a importância de analisar o acervo para compreender a desumanização do período e buscar a reparação histórica.
Nomes, valores, decisões judiciais e a luta pela própria liberdade. Documentos guardados no Arquivo Permanente do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), em Contagem, na Grande BH, estão ajudando a ampliar a história da abolição da escravatura no Brasil.
Para chegar a esses registros, historiadores e equipes de apoio do tribunal mergulharam em um acervo de aproximadamente 600 mil processos. O que eles encontraram mostra a crueldade do sistema escravagista, mas, principalmente, a população negra como protagonista na luta pela própria alforria.
✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 MG no WhatsApp
Um dos processos judiciais descobertos narra a história de um grupo de pessoas escravizadas que haviam sido penhoradas e seriam levadas a leilão. No entanto, o caso teve um desfecho diferente do habitual para a época: elas apresentaram ao Judiciário cartas de liberdade concedidas por antigos proprietários, conseguiram o reconhecimento da alforria e foram libertadas.
"A função de um arquivo é dar acesso aos documentos e garantir direitos. Depois que ele vira um documento permanente, torna-se uma fonte de história. É importante para podermos compreender o passado de forma crítica, reconhecer as violências do período escravista e repensar os caminhos para um futuro de maior equidade", explica Giselle Cesário, gerente de Gestão Documental do TJMG.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/Z/5/vJ9totS1CB952vH1iw5A/design-sem-nome-29-.jpg)
O papel dobrado no bolso
A prova de que a liberdade no papel não isentava a população negra da perseguição diária está materializada em um dos processos do século XIX. Ao folhear o documento, a equipe encontrou um papel dobrado repetidas vezes, até ficar minúsculo. Era uma carta de alforria.
A coordenadora do Arquivo Permanente do TJMG, Sônia Santos, relata a conclusão a que a equipe chegou ao ver as marcas de desgaste daquele papel.
"A pessoa que foi liberta, um homem, devia carregar aquela carta no bolso para, a todo momento, ter que provar que era livre. Imagino que ele devia ser abordado pelas ruas. Então, a todo momento, tirava a carta, abria e provava: 'Não, eu sou uma pessoa liberta'. A escravidão passou, mas o racismo é estrutural e perpassa todos os níveis da sociedade", reflete Sônia.
Vidas como garantia de dívida
O acervo também documenta a participação de instituições financeiras no sistema escravista. Algumas peças mostram como o Banco do Brasil aceitava pessoas negras como garantia para executar dívidas de fazendeiros e comerciantes.
Para a historiadora do TJMG, Júlia Pazzini, os documentos reforçam a desumanização do período.
"Eles eram considerados bens, mercadorias. Podiam ser vendidos, alugados e penhorados. Visto aos olhos de hoje, é completamente desumano", afirma.
Segundo a historiadora, lidar com esse acervo é dialogar com temas sensíveis, porém necessários.
"Infelizmente é uma história incontornável. Precisamos analisar esse passado, não normalizar as coisas e buscar a reparação."
O impacto de tocar na história
Para quem trabalha diariamente empilhando e organizando essa documentação, o contato com o passado transforma a visão de mundo. Marcus Vinicius Ferreira, encarregado de serviços, atua no Arquivo Permanente há 10 anos e conta que a experiência vai muito além do que se aprende nas escolas.
"É diferente quando se estuda no ensino médio. Você se depara com um inventário e vê que uma pessoa era detentora de 150 outras pessoas. Perceber que eram tratadas como objeto, e não como seres humanos, te faz pensar. Hoje as pessoas perguntam quem é preconceituoso. Essa documentação, quando você está frente a frente com ela, te faz pensar como um ser humano", conclui Marcus.




